aradia o evangelho das bruxas


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Aradia – O Evangelho das Bruxas Charles G. Leland 2 Aradia – O E vangelho das B ruxas (1899) Charles G. Leland (1824 – 1903) Sobre esta verso O prefcio e o apndice originais foram resumidos; Trechos do apndice foram inseridos nos captulos 2, 10 e 15 como notas de rodap; A maior parte dos comentrios do autor aos encantamentos (captulos 4 a 8) e contos (captulo 9 e seguintes) foi removida , mantendo - se contudo o indispensvel ao entendimento . A s verses integrais dos textos so encontradas na edio publicada no Brasil pela editora Madras. [email protected] Primeira edio Primavera de 2017 Apareceu em seguida um gr ande sinal no cu: uma Mulher vestida de Sol, a L ua debaixo d os ps e na cabea uma coroa de doze estrelas. Apocalipse 12,1 Y o no creo en brujas , pero que las hay , las hay . Dito popular castelhano Na bruxaria, tudo uma poesia selvagem embasada em smbolos que se fundem em luz e sombra, vaga - lumes e gros, vida e morte. C. G. Leland 3 Sum rio Prefcio ................................ ................................ ................................ ..................... 4 1. Como Diana deu luz Aradia ................................ ................................ ........... 5 2. O sab ................................ ................................ ................................ ................... 6 3. Como Diana fez as estrelas e a chuva ................................ ............................... 8 4. Encantamen to das pedras consagradas ................................ .......................... 10 5. Conjurao do limo e dos alfinetes ................................ ............................... 11 6. Encantamento para o amor ................................ ................................ ............. 11 7. Encantamento para encontrar o que se precisa ................................ ............. 12 8. En cantamento para ter boa vindima e vinho ................................ ................. 12 9. Tana e Endamone ................................ ................................ ............................. 13 10. A Senhora Diana ................................ ................................ ............................. 15 11. A peregrina da Casa do Vento ................................ ................................ ....... 16 12. Tana, a Deusa da Lua ................................ ................................ ..................... 18 13. Diana e as crianas ................................ ................................ .......................... 18 14. Os duendes mensageiros ................................ ................................ ................ 20 15. Laverna ................................ ................................ ................................ ............. 21 Apndice ................................ ................................ ................................ ................ 24 Os filhos de Diana ................................ ................................ ................................ 26 Diana, Rainha das Serpentes ................................ ................................ ................ 27 Diana, doadora da beleza ................................ ................................ ..................... 28 4 Prefcio I nmeras so as bruxas que leem cartas, invocam supostos espritos em cerimnias estranhas, fabricam e vendem amuletos, e de fato se comportam condizentemente com sua reputao. Porm, a bruxa italiana tem uma peculiaridade: na maioria das vezes, ela ve m de uma famlia que pratica a Arte h geraes; h casos de uma ancestralidade que remonta era medieval, romana ou talvez etrusca. Naturalmente, disto resulta o acmulo de uma tradio familiar excepci onal. Em especial no norte da Itlia, salvo alguns contos de fadas e supersties populares colhidas por estudiosos, nunca houve in teresse pela sabedoria das bruxas, nem sequer a suspeita de que esta abrangesse a quantidade enorme de mitos antigos e lendas romanas menores. Ignorncia tal se devia em grande parte s prprias bruxas que, por temor ao clero, mantinham em segredo suas tradies. Apesar disso, l ainda vivem velhas que sabem os nomes dos doze deuses etruscos, bem como conhecem invocaes a Baco, Jpiter, Vnus, Mercrio e lares – os espritos anc estrais. E nas cidades, mulheres a inda preparam amuletos e sobre eles murmuram encantamentos conhecidos desde a Roma Antiga, surpreendendo, com suas lendas de deuses latinos, at mesmo especialistas no as sunto. Em 1866 tive contato com uma dessas mulheres e a incumbi de colher, entre suas irms de bruxaria , as velhas tradies por elas conhecidas. Aps muitos anos, ela obteve, entre outras relquias, o Evangelho apresentado a seguir , cujo manuscrito possuo em redao de seu prprio pu nho. No sei se ela extraiu tais informaes de fontes escritas ou de narrativas orais, mas acredito que tenha sido principalmente destas ltimas. A bruxaria, em poucas palavras, conhecida por seus seguidores como a velha rel igio, e nela Diana a Deusa, e sua filha, Aradia, o messias feminino, e este opsculo expe como ela nasceu, desceu terra, instituiu a bruxaria e retornou aos cus; tambm so apre sentadas cer imnias e encantamentos a Diana e Aradia, o exorcismo de C aim e os feitios da pedra sagrada, da arruda e da verbena, alm das bnos do mel, do trigo, do sal e dos clssicos bolos da refeio das bruxas. 5 1 . Como Diana deu luz Aradia E ste o E vangelho das B ruxas: Diana amou enormemente seu irmo Lcifer, o d eus do Sol e da Lua, o deus da Luz, to orgulhoso de sua beleza que, por tal orgulho, foi expulso do Paraso. Dele, Diana concebeu uma filha, a quem deram o nome de Aradia. Naqueles dias, havia na terra muitos ricos e muitos pobres, e os ricos escravizavam os pobres. Naqueles dias, muitos escravos eram tratados cruelmente: em cada palcio, torturas; em cada castelo, prisioneiros. Muitos escravos escaparam, fugiram para os campos e se tornaram ladres e perversos. noite, em vez de dormir, planejavam fugas, roubavam seus mestres e os matavam, passando a viver como assaltantes e assassinos nas montanhas e florestas, para evitar nova escravido. Um dia, Diana disse a sua filha Aradia: Voc , de fato, um esprito, mas que nasceu para se tornar tambm mortal. P ortanto, descer terra e se tornar mestra de homens e mulheres que de boa vontade desejarem aprender em sua escola: a bruxaria. Que voc nunca seja, porm, como a filha de Caim nem como a raa que se tornou perversa e infame pelo sofrimento, como os jud eus e os ciganos errantes: todos ladres e facnoras. Nunca seja como eles. V oc ser a primeira dentre as bruxas, a primeira a vir ao mundo. Ensinar a arte do envenenamento, para envenenar a todos os grandes senhores e faz - los morrer em seus palcios, s ubmetendo assim o esprito do opressor. Quando encontrar um campons avarento, ensinar s bruxas, suas discpulas, como arruinar sua colheita com tempestade, trovo e raio, com grani zo e vento. Quando um padre lhe fizer mal com suas bnos sionistas, cau sar - lhe - um duplo mal em meu nome, o nome de Diana, R ainha das B ruxas. Quando o nobre e o padre lhe disserem para crer no Pai, no Filho e em Maria, responda sempre: Seu Deus, o Pai e Maria so trs demnios, pois o verdadeiro Deus - Pai no o de vocs. A verdade que vim para destruir os maus e os destruirei. Os pobres e famintos, os que labutam miservel e arduamente, os que sofrem prises , tambm possuem alma, e por seus sofrimentos sero felizes no outro mundo, e mau destino ter aquele que lhes fizer mal. 6 Aps instruda a trabalhar com a bruxaria e a destruir a raa maligna, Aradia disse 1 : Quando eu j no estiver neste mundo, sempre que necessitarem de algo, uma vez ao ms, n a lua cheia, renam - se num deserto para adorar o esprito poderoso de minha me Diana, e a quem quiser aprender bruxaria, mas ainda no domina seus segredos, minha me ensinar todas as coisas, e livres vocs estaro da escravido, e livres em tudo sero. Homens e mulheres devero estar nus durante os ritos. At que o ltimo opressor esteja morto, vocs faro o jogo do Benevento 2 e, depois, a seguinte refeio: 2 . O sab C onjuro o trigo 3 , que nosso corpo e sem voc n o podemos viver ! Antes de florescer, germinou sob a terra, onde se ocultam todos os segredos. Depois, modo o gro, bailou no ar como poeira ao vento, levando consigo em seu voo segredos estranhos. Quando, ainda na espiga, j era gro brilhante, sobre voc vaga - lumes lanavam sua luz e ajudavam em seu crescimento, e sem este auxlio voc no cresceria nem belo se tor naria. Assim, voc pertence raa das bruxas e das fadas, porque os vaga - lumes pertencem ao Sol. Apresse - se, R ainha dos V aga - lumes! Venha a mi m a toda brida! Ao ouvir meu canto, arreie seu cavalo! Arreie, arreie o filho do rei! Venha depressa traz - lo a mim! O filho do rei logo vir libert - la! E sendo sempre bela e luminosa, sob um copo de vidro vou captur - la e, com uma lente, estudarei seus s egredos, at que todos os mistrios luminosos me sejam revelados. Conhecerei toda a sabedoria maravilhosa e desconcertante desta vida e da prxima, conhecerei todos os mistrios: sim, at os contidos no ltimo dos gros. E finalmente, quando tudo for por m im conhecido, vaga - lume, deixarei que v em liberdade; q uando os segredos sombrios da terra forem desvendados, finalmente lhe darei minhas bnos . 1 A seus discpulos. 2 Outra forma de designar a reunio das bruxas, em referncia localidade italiana onde, no final da Idade Mdia, sob uma grande nogueira, bruxas se encontravam para celebrar o sab. 3 O gro se relaciona aos segredos ctnicos e a tudo que se encontra sob a terra, onde jazem escurido e segredos maravilhosos. Na bruxaria moderna, at minhocas so invocadas como familiarizadas com os mistrios sombrios, e para adquirir pode r rfico, a flauta do pastor ficava enterrada por trs dias. Na bruxaria, tudo era – c omo ainda – uma poesia selvagem embasada em smbolos que se fundem em luz e sombra, vaga - lumes e gros, vida e morte. 7 Conjuro o sal! Veja: meio - dia! Assumo meu lugar no meio de um rio e olho a gua a meu redor. Fao como o Sol e em nada mais penso enquanto estou na gua radiante , pois para a gua e para o Sol que minha mente se volta. S desejo, sem qualquer outro pen samento, conhecer a verdade das verdades, pois h tempos sofro este anseio de conhecer meu destino, e se nele o mal houver de prevalecer, gua e Sol, conduzam - no para o bem! Conjuro Caim, que nunca ter descanso ou paz enquanto no for libertado da Lua, o nde se encontra cativo! Que venha correndo, agitando as mos! Peo - lhe que revele meu destino e, se infeliz, que altere seu curso! Se esta graa me for concedida, ser vista na gua, brilhante como o prprio Sol, e voc, Caim, dir - me - em palavras qual ser meu destino. Mas se esta graa me for negada, que voc jamais tenha paz ou alegria. Faa bolos de farinha de trigo, vinho, sal e mel, em forma de Lua, e ponha - os para assar, dizendo: No asso o po ou o sal, nem cozinho o mel ou o vinho. Asso o corpo, o sangue e a alma de Diana, para que ela no tenha paz ou descanso, e permanea em dor enquanto no me conceder a graa to querida, a splica de todo meu corao! Se me conceder a graa, Diana, farei um banquete em sua honra, celebrarei e esgotarei o clic e, e todos danaremos e saltaremos! Se me conceder a graa, na loucura da dana as luzes sero apagadas e nos amaremos livremente! E assim ser: homens e mulheres se sentaro nus mesa e, findo o banquete, danaro, cantaro, tocaro msica e se amaro na escurido, pois quem apaga as luzes o esprito de Diana, e em seu louvor devem danar e cantar 4 . E tendo a filha cumprido seu tempo junto aos vivos, Diana a chamou de volta e lhe deu poder, quando invocada e praticada uma boa ao, de conceder aos que a conjurarem ter sucesso no amor, abenoar e amaldioar amigos e inimigos, comunicar - se com os 4 A escurido, a nudez e a orgia eram consideradas os smbolos do corpo sepultado na terra, do gro plantado, da transio pelas sombras e pela morte, e do renascimento em novas formas, ou seja, a regenerao e a luz. 8 espritos, descobrir tesouros em runas, conjurar espritos de sacerdotes que morreram deixando tesouros, compreender a voz do vento, transformar gua em vinho, ler cartas, conhecer os segredos da mo, curar males, transformar o feio em bonito, domar animais selvagens. E qualquer pedido dirigido ao esprito de Aradia ser concedido aos merecedores, e assim ela deve ser invocada: Busco Aradia! Aradia! Aradia! mei a - noite, meia - noite irei ao campo levando gua, vinho e sal. Levo gua, vinho, sal e meu talism, meu talism, meu talism, e um saqu inho vermelho que sempre tenho mo, com sal dentro, sal dentro dele. Com gua e vinho eu me abenoo, devotamente me abenoo, e imploro uma graa a Aradia, Aradia, Aradia! Minha Aradia! Filha do mais maligno dos espritos, que jaz no Inferno, que foi expulso do Paraso, que a gerou da p rpria irm! Mas sua me, arrependida do erro, quis faz - la um esprito benvolo, e no malvolo! Aradia! Aradia! Aradia! Pelo amor que sua me lhe tem e pelo amor que eu lhe tenho, imploro pela graa que tanto necessito! E se ela for concedida, trs sinai s receberei: o silvo da serpente, a luz do vaga - lume, o coaxo do sapo. Mas se a graa me for negada, que voc no tenha paz ou alegria, e se sinta obrigada a me buscar, ainda que distante. Venha com presteza, para ento poder retornar a seu lugar. 3. Como Di ana fez as estrelas e a chuva D iana foi a primeira a ser criada, antes de toda a C riao, e nela estavam todas as coisas. De si mesma, das trevas primeiras, ela se dividiu: em trevas e luz ela foi dividida. Lcifer – seu irmo e filho, ela prpria e sua o utra metade – era a luz, e quando Diana viu que a luz era belssima – a luz que era sua outra metade, seu irmo Lcifer – , ela a desejou avidamente, estremecendo ao querer receber novamente a luz em suas trevas, absorv - la em xtase e deleite, e este desej o foi o amanhecer. Mas Lcifer, a luz, dela fugia, e no se rendia a seus desejos: ele era a luz que se lana aos mais distantes cus, o rato que se esquiva do gato. Diana ento foi aos pais do Princpio, s mes, aos espritos que vieram a ser antes d o pr imeiro esprito, e se lamentou por no ter domnio sobre Lcifer. E eles a louvaram por sua coragem e disseram que para se elevar, era preciso decair, e para se tornar a 9 soberana entre as deusas, era preciso se tornar mortal. E nas eras, no curso do tempo, quando da criao do mundo, Diana foi terra – como fizera Lcifer em sua queda – e ensinou magia e feitiaria, e disto vieram bruxas, fadas e duendes, tudo o que se assemelha ao homem, embora no seja mortal. E aconteceu de Diana assumir a forma de um g ato: Seu irmo tinha um gato, por ele amado mais que a todas as criaturas, e que dormia todas as noites em sua cama; a beleza do animal superava a de todas as criaturas, mas Lcifer desconhecia que ele era, de fato, uma fada. Diana triunfou sobre o gato e assumiu sua forma, deitou - se com seu irmo e, nas trevas, reassumiu sua prpria forma. Unindo - se a Lcifer, Diana se tornou me de Aradia. Pela manh, vendo - se ao lado da irm e entendendo que a luz fora conquistada pelas trevas, Lcifer se enrai veceu. Dia na, ento, encantou - o com sua bruxaria e o fez am - la, e este foi o primeiro fascnio: ela lhe soprou uma cano, como um zumbido de abelhas, como um tear tecendo a prpria vida . Ela teceu a vida de todos os homens, todas as coisas foram tecidas a partir d a roda de Diana, e Lcifer girava a roda. Bruxas, espritos, fadas, elfos e duendes, que habitavam os desertos, desconheciam que Diana era sua me. Ela se escondia em humildade e era uma mortal, mas por sua vontade, reergueu - se sobre todos. Ela era apaixon ada por bruxaria, e nisto se tornou to poderosa que sua grandeza no pde continuar oculta. E ento aconteceu de uma noite, num encontro de bruxas e fadas, Diana declarar que escureceria os cus e transformaria as estrelas em ratos, e os presentes dissera m: Se voc pode fazer algo to estranho, se alcanou tamanho poder, ento dever ser nossa rainha. Diana se dirigiu rua, pegou uma bexiga de boi e um pedao de dinheiro - das - bruxas, afiado como uma faca – com isto, as bruxas cortam do solo as pegadas dos homens – , e cortou a terra, e com ela e com muitos ratos, encheu a bexiga e a soprou at que explodisse. E ocorreu ento uma grande maravilha: a terra da bexiga se tornou a abbada celeste, e por trs dias houve muita chuva, e os ratos se tornaram estrelas e chuva. E tendo feito o cu, as estrelas e a chuva, Diana se tornou a Rainha das Bruxas: ela era o gato que regia o cu, as estrelas e a chuva . 10 4. E ncantamento das pedras consagradas Encontrei uma pedra furada! Agradeo ao destino pelo feliz achado, e tambm ao esprito que a ofereceu a mim nesta estrada! Que seja para meu verdadeiro bem e boa sorte! Levanto - me aos primeiros alvores e caminho por vales, mon tanhas e prados lindos. Contando com a sorte, vagu e ei procurando arruda e verbena de to doce arom a que a mantenho a salvo junto ao peito para ningum saber, pois coisa secreta e sagrada. Ento recito o encantamento: Verbena, que sempre seja benfica e cumule de bnos a bruxa ou a fada que a ofereceu a mim! noite, Diana teve comigo em sonhos e di sse: Se quiser afastar os malvados, tenha sempre consigo verbena e arruda em lugar seguro. Grande Diana! Rainha da T erra, do C u e do I nferno mulheres de m - vida, voc que lhes concede alegria por saber que no so verdadeiramente maus, vou conjur - la uma vez mais e, enquanto no me conceder a graa que peo com f absoluta, voc no ter paz e felicidade, e em sofrimento sempre estar. Esprito dos bons pressgios que veio em meu socorro, saiba que preciso mui to de voc! Esprito do Duende Vermelho, j que veio em meu socorro, suplico que no me abandone! Peo que entro nesta pedra redonda, para que eu o carregue em meu bolso e possa cham - lo quando precisar. Acontea o que acontecer, no me abandone, seja noit e, seja dia. Se eu emprestar dinheiro a um homem, peo, Duende Vermelho, que o faa saldar a dvida, e se no a saldar de maneira alguma, v a seu encontro e grite br i! - bri!; e se dormir, desperte - o com belisces, retire - l he as cobertas, assuste - o, siga - o aonde for, faa - o saber com um incessante bri! - bri! q ue, se se esquecer de sua obrigao, ter problemas at quitar o dbito. Assim, meu devedor logo me trar ou enviar o que deve. Por isso rogo, Duende Vermelho, venha a meu auxlio! E se eu brigar com a pessoa amada, peo - lhe, esprito da boa sorte, que at ela v enquanto dorme e, puxando - lhe pelos cabelos, traga - a noite adentro at meu leito! E pela manh, qua ndo os espritos partem para o repouso , leve - a de volta para casa e a deixe l adormecida, antes de retornar a sua pedra. Assim lhe peo, Duende, para que nesta pedra faa morada, obedea minhas ordens e esteja sempre em meu bolso, para que nunca mais nos separemos. 11 5. C onjurao do limo e dos alfinetes meia - noite, colhi no jardim um limo, uma laranja e uma tangerina. Colhi estes frutos cuidadosamente, dizendo: Diana, Rainha do Sol, da Lua e das E strelas! Veja! Chamo - a aqui! E com meu poder, conjuro - a a me conceder a graa pela qual suplico! Trs frutas apanhei: um limo, uma laranja e uma tangerina. Eu as colhi para me trazerem boa sorte. Elas esto em minhas mos, Rainha das Estrelas. Faa com que apenas a fruta que servir a meu destino permanea em mi nha mo 5 . Se desejar boa sorte a voc ou a um amigo – a quem o limo dever ser dado – , cuidadosamente espete alfinetes multicoloridos no limo. Porm, se desejar o mal a outrem , transpasse a fruta 6 com alfinetes negros e pronuncie este encantamento: Deusa Diana, eu a conjuro em voz alta! Que voc nunca tenha paz enquanto no vier em meu auxlio. Amanh, ao meio - dia, estarei lhe esperando com uma taa de vinho, uma lente 7 e treze alfinetes negros que usarei no encantamento , e voc, Diana, cravar todos eles no limo , chamar os demnios infernais e os enviar ao Sol ; eles traro consigo o poder do Sol para fazer este vinho ferver como o fogo infernal e para deixar em brasa estes alfinetes que sero cravados no limo, e quem o receber no ter paz ou prosperi dade. Se esta graa me conceder, peo - lhe um sinal: antes do terceiro dia, que eu oua o uivar do vento, ou o tamborilar da chuva, ou o rudo do granizo na plancie . Diana, voc no ter paz enquanto no me mostrar um dos trs sinais. Atenda minha splica ou a atormentarei dia e noite. 6. E ncantamento para o amor Diana! Bela Diana! To bondosa quanto bela! Por toda venerao que lhe dedico , pelos prazeres do amor por voc conhecidos, e porque tudo o qu e voc deseja se realiza , imploro sua ajuda! C onceda - me e sta graa e chame sua filha, Aradia, enviando - a ao leito da mulher que amo, conferindo - lhe a aparncia de um co e a fazendo ir a meu quarto, 5 Lanam - se as frutas ao ar e, restando na mo o limo, a cerimnia p rossegu ir . 6 A laranja a fruta do Sol, e o limo, de cor amarela mais clara, a da Lua. Porm, o limo colhido para este encantamento deve ser o verde, pois endurece e escurece. 7 Para concentrar os raios solares. 12 onde – eu rogo – reassumir ela a forma humana, to bela como jamais o fora, e nos amaremos at nossas almas se satisfazerem de prazer. Ento, com o auxlio da Fada Diana e de sua filha Aradia, ela se transformar novamente em co e, quando em casa, tornar a sua forma primeira . 7. Encant amento para encontrar o que se precisa tera - feira e, bem cedo, antes de sair de casa, peo bela Diana sorte em meu lar e em meus caminhos. C om trs gotas de leo rogo, humildemente, bela Diana, que toda m influncia seja afastada de mim e enviada a meu inimigo: a m sorte de mim retirada ser lanada rua! Se esta graa me for concedida, bela Diana, alegremente farei soar os sinos de minha casa e , feliz, seguirei meu caminho, certo de que comigo voc estar quando eu encontrar livros excelentes e an tigos a bom preo . E voc descobrir o homem a quem tais livros pertencem , conduzir seus pensamentos e ele far apenas o que for de sua vontade, trazendo a minhas mos , a preo baixo, mesmo os mais antigos manuscritos , para que, com a ajuda de Diana, eu p ossua tudo o que preciso . 8. Encantamento para ter boa vindima e vinho Bebo, porm no do vinho, mas do sangue de Diana, pois o vinho se transformou em sangue e se derramou pelas videiras. Isso propiciar bons vinhos, pois mesmo a safra boa requer cuidados, e o vinho se perde se a uva matura r na lua minguante. Bebendo deste chifre, bebo o sangue de Diana, e para ter seu auxlio, mando beijos para a lua nova e peo Rainha que proteja minhas uvas, do irromper do boto maturao. Quando chegar o momento da vindima e do vinho, q ue este seja bom e me traga lucro. Que assim a sorte se derrame sobre vinhos e terras! Mas se as uvas no crescerem, meia - noite, na adega, soprarei fortemente a trompa de chifre, fazendo um rudo tremendo, emitindo um som to terrve l que voc, bela Diana, esteja onde estiver, ouvir o chamado e, abrindo portas e janelas com vento impetuoso, ligeira vir a meu encontro e salvar a mim e a minhas vinhas, e vitando grande desgraa, pois perder a vinha seria perder a mim mesmo! Mas com se u auxlio, bel a Diana, certamente serei poupado. 13 9. Tana e Endamone 8 Agora lendrio que Endimio, depois de acolhido no Olimpo, tenha sido expulso por desrespeitar Juno, sendo banido para a terra por trinta anos. E neste perodo, enquanto permanecia adorme cido numa caverna do monte Latmos, Diana, tocada por sua beleza, visitava - o todas as noites e dele gerou cinquenta filhas e um filho. Depois disso, Endimio foi chamado de volta ao Olimpo. Dizionario Storico Mitologico A bela deusa Tana 9 amava um rapaz lindssimo chamado Endamone, mas seu amor era atormentado por uma bruxa que era sua rival, ainda que Endamone a esta no desse ateno. Querendo conquist - lo, a bruxa induziu o servo do rapaz a deix - la passar a noite em seu quarto e, assumindo a aparnci a de Tana – a quem ele amava e sempre recebia com abraos apaixonados – , submeteu - o a seu poder e lhe cortou um cacho dos cabelos para realizar um encantamento. Voltando para casa, a bruxa fez uma bolsa com um pedao de intestino de ovelha e nela colocou o s cabelos de Endamone. Amarrando - a em seguida a uma pena com uma fita vermelha e outra preta, juntou pimenta e sal, e cantou: Fiz uma bolsa para Endamone : esta minha vingana pelo amor no correspondido, pois voc ama outra, ama a bela deusa Tana, que nu nca ser sua. A paixo lhe ser torturante, um desejo de amor nunca concretizado, um tormento eterno. Voc estar num sono repleto de amor, observando sua amada sem lhe poder falar ou tocar , ter vontade de t - la e no a ter. Como uma vela ao fogo, incess ante e inutilmente lutar. No viver, no suportar, voc se perder. Seu corao sentir amor, mas no o realizar. O amor que lhe entreguei agora dio, e esta, Endamone, minha vingana, e somente nela encontro minha alegria. Embora mais poderosa que a bruxa, Tana f oi incapaz de desfazer o encantamento que adormecia Endamone, mas lhe retirou o sofrimento e, abraando - o, cantou este contrafeitio: Endamone, Endamone, Endamone! Pelo amor que lhe tenho e que por 8 As canes deste captulo se baseiam nos textos i talianos de Maddalena, no nas verses de Leland, encontradas na edio da Madras. O mesmo vale para o captulo 13. 9 . 14 outro nun ca terei, fao trs cruzes e dei xo trs castanhas 10 sobre seu leito . A janela est aberta para que a lua cheia brilhe sobre seu leito com o mesmo brilho esplndido de nosso amor, e Lua rogo que, das alturas, d - nos o xtase do amor e lance sua chispa em cada corao que ama demais para se separar. E fao mais um pedido: quando um apaixonado pedir meu auxlio, que sem tardar eu oua seu chamado. Endamone, Endamone, Endamone! Sou a luz que brilha sobre voc e em seu corao perambularei at adormecer, e ao dormir, tantas coisas farei, tant o farei e tanto faremos juntos, que ser como se unidos estivssemos. E assim, em sonhos, Ta n a e Endamone se amaram como se estivessem despertos. O mito aborda luz e sombra, dia e noite, dos quais surgiram as 51 – agora 52 – semanas do ano. Diana a noit e, e Apolo, o Sol ou a luz em qualquer forma. H tambm a ideia da Lua projetando sua luz em recessos escuros e atuando nos mistrios do amor e dos sonhos , nunca testemunhados pelo Sol. No poema das bruxas italianas, a Lua a divindade invocada para prote ger os amores estranhos e secretos, nublar os pensamentos e lana r sobre a natureza silente um esprito de inteligncia e emoo, provocando um vago despertar que faz rvores e pedras vibrarem e respirarem – porm permanecendo em estado onrico. E tudo ist o os gregos ex pressaram como Diana abraando Endimio. A noite consagrada aos segredos, e desse modo que Diana dos Mistrios – Rainha da Noite, senhora de coisas ocultas, dos doces segredos e das adorveis iniquidades, detentora do crescente lun ar – se tornou a rainha das bruxas emancipadas e da noite, a prpria Vnus - Astarte noturna, a realizao do amor proibido atrado por uma beleza apenas entrevista luz do luar, como um encantamento de fadas ou bruxas, um romance singular e extico. H um perigos o silncio nessa hora, uma calma que faz com que a alma plena se abra totalmente, incapaz de reassumir o autocontrole. A luz prateada consagrando rvore e torre irradia sobre tudo beleza e suavidade profundas , e tambm sussurra ao corao, onde derrama um delicado langor que no repouso. Este o significado do mito de Diana e Endimio: transmuta o que apaixonado, secreto e proibido em divino ou esttico – o que era a mesma coisa para os gregos. 10 Castanhas - da - ndia . 15 10. A Senhora Diana Alto uma jovem belssima e pauprrima , porm imensamente orgulhosa: a depender de sua vontade , casar - se - ia apenas em grande estilo, com luxo, festas, damas de honra de alta estirpe e um lindo vestido. E tal desejo passou a obcecar Rorasa a tal ponto que as outr as garotas do lugar, assim como os homens por ela recusados, faziam - lhe zombarias e lhe indagavam quando seriam as bodas. Tantos eram os risos e gracejos que, num momento de desatino , a jovem se atirou de uma torre, despencando rumo a uma enorme ravina. No entanto, durante a queda, uma bela mulher a tomou pela mo e a conduziu pelos ares par a um lugar seguro. Os circunstantes consideraram a quilo um milagre e, aproximando - se, tentaram persuadir Rorasa de que a responsvel pelo salvamento fo ra a Senhora 11 . Mas sua salvadora a procurou em segredo e disse: Se deseja algo, siga o Evangelho de Diana ou o que chama m de Evangelho das Bruxas, no qual se venera a Lua . Se adorar a Lua, ter tudo o que deseja. noite, a jovem saiu sozinha pelos campos e, ajoelhando - se sobre uma runa, cultuou a Lua , invocando Diana desta forma: Diana, bela Dian a! A voc que me salvou d e uma morte terrvel na ravina escura, peo que me conceda mais esta graa: d - me um casamento glorioso e damas de honra belas e nobres. Se com este favor a Senhora me agraciar, serei fiel ao Evangelho das Bruxas! Ao despertar na manh seguinte, Rorasa se viu numa magnfica casa, onde uma bela camareira a conduziu a outra dependncia e a vestiu com um lindo traje de noiva. Ento apareceram dez jovens esplendidamente vestidas e, acompanhada por elas e por outras pessoas igualmente distintas, Rorasa seguiu para a igreja numa carruagem. Em todas as ruas havia msica e pessoas levando consigo flores. Ela se casou com uma suntuosidade dez vezes m aior do que imaginara e, aps a cerimnia, houve uma celebrao para toda a magnficos presentes – diamantes e pergaminhos escritos em ouro – e se dirigiram para a sacristia, onde permaneceram por horas, at que o padre lhes enviou seu clrigo para indagar o que desejavam – mas l ele no encontrou as damas de honra, e sim dez imagens 11 Maria de Nazar . 16 de madeira e terracota, e no centro delas, uma imagem de Diana em p sobre a Lua. As imagens , de imenso valor, eram lindas e estavam adornadas belamente , e por isso o padre as colocou na igrej a , que tualmente em muitas igrejas se veem re presentaes da Senhora sobre a Lua, mas na verdade aquela Diana, a Deusa da Lua 12 . (O nome Rorasa parece vir do latim ros, orvalho ; rorare, orvalhar ; rorulenta, orvalhada – de fato, a Deusa do Orvalho. Sua queda sugere a descida do orvalho noite, e seu salvamento por Diana , a elevao em forma de vapor , sob influncia da Lua. A seda branca e os diamantes tambm parecem indicar o orvalho.) 11. A p eregrina da C asa do V ento 13 Prximo a Volterra havia um casebre no qual morava um casal e sua filha. Quando a criana cresceu, a me, muito devota, desejou que ela se tornasse freir a, mas isso desagradava a garota que, um dia, ao ouvir os pssaros cantando nos vinhedos, disse que desejava ter ela mesma uma famlia de passarinhos cantando a seu redor num alegre ninho. Enraivecida, a me lhe desferiu um tapa , ao que a garota respondeu firmemente que se fosse novamente agredida, e se a me continuasse com tal pensamento para ela, fugiria de casa e se casaria sem a aprovao dos pais, pois no toleraria se tornar freira. Assustada, a me se lembrou de uma velha senhora, s olitria e de boa famlia, famosa por sua inteligncia, sabedoria e persuaso, e pensou: Minha filha precisa de algum assim para lhe inculcar devoo e a induzir a ser freira . Ento a velha foi designada governanta da garota, que a ela foi logo enviada. O correu, contudo, que a garota, ficando acordada em noites enluaradas para ouvir o canto dos rouxinis, certa vez pensou notar a governanta se levantar no quarto ao lado do seu e ir at a varanda, e isto se repetiu na noite seguinte. Lev antando - se suavement e, 12 Escreveu E. N. Rolfe, em Naples in the Nineties: O adorador de Diana prevaleceu. Quando o cristianismo substituiu o paganismo, grande parte do simbolismo pago foi adaptada aos novos ritos, e a transio do culto de Diana para o da Senhora se deu de modo relativamente simples. A Senhora essencialmente a Deusa da Lua. 13 Leland no considerava est e conto – assim como os contos dos captulos 12 e 14 – parte do Evangelho das Bruxas. 17 viu a velha ajoelhada ao luar, pronunciando palavras ininteligveis, que certamente no faziam parte dos ritos da Igreja. Intrigada, a garota a questionou, e a velha, aps faz - la jurar segredo, disse: Em minha juventude, tambm fui instruda a venerar um deus invisvel, mas uma idosa, em que m muito con fiava, disse - me no ver sentido em ador ar tal divindade, quando se podia adorar a Lua, visvel em todo seu esplendor. Portanto, adore a Lua, invoque Diana, a deusa da Lua, e ela atender seus pedidos. Faa isso e obedea o Evangelho de Diana, Rainha das Fadas e da Lua. Persuadida, a garota se converteu ao culto a Diana, e pedindo de todo o corao um amante, logo foi recompensada pela afeio de um rico e virtuoso cavaleiro. Porm, sendo - lhe gratificante a vingana e a cruel vaidade, sua me o mandou embora quando ele lhe pediu a mo da filha, que logo em seguida foi presa numa cela, l permanecendo solitria, faminta e angustiada, dormindo sobre pedras nuas. Nesta terrvel necessidade, a garota orou a Diana por sua liberdade e descobriu, espantada, que o ferrolho fora retirad o da porta da priso, permitindo - lhe fugir facilmente. Valendo - se de uma indumentria de peregrino, a garota viajou para lugares distantes, onde ensinou e pregou a velha religio, a reli gio de Diana, deusa dos pobres e desvalidos. Os comentrios sobre sua sabedoria e beleza a precediam, e ela passou a ser chamada de A Bela Peregrina. Ao descobrir onde estava, sua me mais uma vez mandou prend - la, e quando a garota disse que havia abandonado definitivamente a Igreja Catlica e passara a adorar Diana e a Lua, a me a entregou aos sacerdotes, para ser torturada e morta, como ocorria com os que no aceitassem ou abandonassem sua f. Na vspera de sua tortura, a jovem pde, acompanhada de um guarda, ir ao jardim do palcio onde estava cativa, e ali, iluminada pela lua cheia de Diana, fez uma prece por sua libertao definitiva, pois no suportava mais aquela perseguio covarde. Os deuses ouviram sua splica: subitamente, uma tempestade fortssima se abateu sobre o palcio – onde estavam seus pais e os sacerdotes – , destruindo o lugar e todos os que nele estavam. Por fim, a jovem escapou e pde se cas ar com seu amado , e a casa na qual viveu com seus pais ainda existe, e passou a ser chama da de A Casa do Vento. 18 12. Tana, a Deusa da Lua Tana, uma jovem bela e pobre, to pura quanto modesta, vivia honestamente trabalhando nas lavouras. Acon tecia, porm, de ser perturbada por um rapaz feio e abrutalhado , para quem no suportava sequer olhar e a quem repelia a cada tentativa de aproximao. Certa noite, ao voltar do trabalho para casa, tal homem, que a aguardava escondido numa moita , saltou diante dela e ameaou tom - la fora. Vendo - se indefesa , guardada apenas pelo olhar da Lua, Tana se ajoel hou e gritou: No h quem me defenda neste lugar ! Apenas voc me v neste dilema, portanto rogo, Lua bela e brilhante, que lana seu esplendor sobre toda a humanidade, ilumine tambm a mente deste pobre rufio que me intenta o pior dos males! Ilumine sua a lma para que me deixe em paz, para que eu possa retornar para casa guiada por sua luz! E ento surgiu diante dela uma sombra brilhante, que disse: Levante - se e v para casa. Voc mereceu esta graa. Ningu m mais importunar a mais pura da Terra. Voc s er uma deusa, a Deusa da Lua, Rainha dos E ncantamentos. 13. Diana e as crianas H muito tempo, havia em Florena uma famlia nobre que, apesar de empobrecida, continuava vivendo em seu palcio – que ficava na atual La Via Cittadela – , mantendo assim uma aparn cia de riqueza quando, na verdade, s vezes lhe faltava at o que comer. O lugar era circundado por um grande jardim, onde havia uma esttua de Diana, em mrmore, como uma mulher linda correndo acompanhada de seu co; trazia nas mos um arco e, na testa, u m pequeno crescente lunar. Dizia - se que, noite , no sil ncio do mundo , a est tua adquiria vida e fugia, retornando apenas com o desaparecimento da Lua ou o nascer do Sol. Certo dia, duas crianas que moravam no palcio chegaram ao jardim trazendo consigo flores, e a garotinha disse ao irmo: A bela senhora com o arco deveria ganhar algumas destas flores!, e no s depositaram algumas das flores diante da esttua, como tambm fizeram uma guirlanda, que o menino colocou em sua cabea. Nesse momento , passava por ali o grande poeta e mago Virglio, que tudo sabia sobre deuses e fadas, e lhes disse: A oferenda de flores foi feita como nos tempos antigos, mas agora 19 preciso pronunciar a pre ce adequada . , e recitou a Invocao a Diana: Bela deusa do arco! Bela deusa das flechas! Deusa da caa e dos ces! Voc que caminha no cu estrelado quando o Sol se recolhe ao sono! Voc que ostenta a Lua em sua fronte e que prefere caar noite do que durante o dia, ao som das trompas de suas ninfas! A voc, Rainha d os Caadores e Rainha da Noite, mais poderosa dentre todos, suplico: guarde - nos! Virg lio tambm as ensinou a Conjurao 14 a Diana, a ser recitada quando se necessita de boa sorte ou de algo especial: Bela deusa do arco - ris, das estrelas e da Lua! Rainha d os mais poderosos caadores e da noite! Recorremos a voc para que nos d sempre boa sorte! Se ouvir nossa conjurao e nos der sorte, um sinal nos ser dado! Depois disso, Virglio partiu, e as crianas contaram aos pais o acontecido e estes lhe pedir am q ue guardassem segredo; mas todos da famlia se surpreenderam quando, na manh seguinte, encontraram um veado recm - abatido diante da esttua, o que lhes propor cionou bons jantares por dias. E desde ento, sempre que desejavam uma caa, proferiam devotament e a prece e a graa lhes era concedida. Certo dia, passou diante do jardim um sacerdote – um vizinho d a famlia a quem horrorizavam rituais e cultos aos deuses antigos – que, ao observar que a esttua de Diana ostentava uma b ela guirlanda, encolerizou - se, e vendo na rua um repolho apodrecido, revolveu - o na lama e o atirou sobre o rosto da deusa, bradando: A est, besta infame da idolatria, a homenagem que lhe fao! Que o diabo lhe carregue!; ao que ouviu uma voz vinda das sombras, onde as folhas eram densa s: Muito bem! Agora qu e fez sua oferenda, aguarde por sua poro de minha caa. noite, o padre foi atormentado por sonhos pavorosos , at ser despertado, s trs horas da madrugada, com a sensao de algo lhe pesando sobre o peito – algo que logo ro lou pa ra o cho. Ao se levantar viu, luz do luar, que se tratava da cabea de um homem, repleta de vermes e ftida. Ouvindo o grito de horror, outro pa dre adentrou o quarto e disse: Esta cabea a de um h omem a quem ouvi a confisso. Ele foi degolado h trs meses em Siena. Trs dias depois, o prprio padre que insultara a deusa se encontrou com a morte. 14 As invocaes so hinos elogiosos ; j as conjuraes so pedidos ou splicas, embora muitas vezes assumam a forma de ameaa – o que s existe na bruxaria clssica. 20 14 . Os duendes mensageiros H muitos sculos, Mercrio – o deus da veloci dade – agraciou um duende (ou gnomo, esprito, anjo ou demnio... quem sabe?) com o dom de correr como o vento, sempre alcanando qualquer esprito, humano ou animal que deseja sse. Este duende tinha uma irm, mensageira como ele – porm no dos deuses, mas sim da deu sa – , e no mesmo d ia da graa de Mercrio, Diana agraciou a bela fada com o poder de nunca ser alcanada em qualquer perseguio. Ao v - la passar clere como um raio no cu, o irmo se sentiu tomado pelo desejo de com ela se rivalizar e seguiu em seu encalo. Porm, como ne les se equilibrava a vontade de dois deuses supremos, a corrida no tinha fim, e o que a princpio divertia os deuses, comeou a preocup - los. O grande Deus - Pai disse, ento: A Terra se encon tra em sombras. Transformarei a irm em Lua e o irmo em Sol, e a ssim, ainda que ela sempre fuja dele , ser alcanada por sua luz, que incidir sobre ela a distncia; os raios solares sero suas mos, estendendo - se frente em clido abrao, ainda que sempre evitadas. E se diz que esta corrida recomea no primeiro dia d e cada ms, quando a fria Lua est recoberta de muitas camadas, como uma cebola. Mas ao iniciar a corrida, ela se aquece e retira as peas de seu vesturio, uma a uma, at ficar nua – quando ento para, se veste novamente, e recomea a corrida. Assim como uma nuvem tempestuosa se rompe em gotas brilhantes, os grandes mitos do passado se dispersam em pequenos contos de fadas, que se renem num lago silencioso ou num r iacho solitrio. O notvel n este conto que a Lua comparada a uma cebola, e esta, por su as muitas camadas , era para os antigos egpcios o smbolo e o hierglifo das muitas fases da Lua; alm disso, o crescimento e a diminuio da cebola corresponde m aos da Lua. Por isso, a cebola era dedicada a sis, Deusa da Lua. 15 A cebola era to sagrada qu e a considerava m habitada por uma divindade, o que fez Juvenal observar que os egpcios eram feliz es por ter em deuses crescendo nos jardins. 15 Friedrich (Symbolik der Natur , pgina 348). 21 15 . Laverna Virglio – mago, poeta e conhecedor de todas as coisas ocultas – , ao ser indagado pelo imperador sobre o discurso de um famoso orador, respondeu: Parece - me impossvel saber se o discurso no passou de uma introduo ou de uma concluso, mas certamente lhe faltou a parte central, o corpo. Algo muito semelhante a um certo tipo de peixe do qual no se sabe se constitudo s de cabea ou s de cauda, ou como a deusa Laverna, que ningum nunca soube dizer se tinha s cabea ou s corpo, nenhum dos dois ou ambo s. Ento o imperador perguntou quem era essa de usa , da qual nunca tinha ouvid o falar, e Virglio respondeu: Entre os deuses ou espritos dos tempos antigos – que eles nos sejam favorveis! – estava a mais astuciosa e desonesta das mulheres: uma ladra, pouc o conhecida d o s demais de uses – honesto s e digno s – , por raramente estar no Cu ou na Terra das F adas; quase sempre estava na Terra, entre ladres, batedores de carteiras e alcoviteiros, vivendo na escurido. Certa vez, sob o disfarce de uma sacerdotisa no bre e bela, ela disse a um sacerdote: O senhor tem uma propriedade que desejo, pois intento ali construir um templo para Deus. Juro por meu corpo que lhe pagarei em um ano., e assim o sacerdote lhe transferiu a propriedade. Mas no tardou e Laverna vendeu a baixo preo colheitas, gros, gado, madeira e aves; nada restou que valesse sequer alguns vintns. No dia marcado para o pagamento, ela no foi encontra da, deixando seu credor em apuros. Nesse nterim, Laverna foi a um grande senhor e d ele comprou um cas telo mobiliado ricamente e cercado por terras frteis, jurando por sua cabea que o p agaria em seis meses. E agiu da mesma forma: vendeu cada bengala, moblia, gado, homens e at mesmo os ratos do lugar; nada sobrou para alimentar uma mosca que fosse. Ent o o sacerdote e o senhor descobriram quem ela era e apelaram aos deuses, queixando - se de que haviam sido roubados por uma deusa , e assim Laverna foi chamada a julgamento. Ao ser indagada sobre o que fizera com a pr opriedade do sacerdote, ela fez seu corpo desaparecer, d eixando visvel apenas sua cabea . Vejam! Jurei pag - lo por meu corpo, mas no t enho corpo!, respondeu, e os d euses gargalharam. E n a vez do grande senhor, Laverna mostrou a todos seu belo corpo, porm sem a cabea, e do pescoo veio uma voz: Vejam ! Sou Laverna, que veio r esponder queixa desse senhor! Ele afirma ter 22 eu contrado uma d vida n o paga no prazo e que jurei por m inha cabea, mas, como veem , no tenho cabea, portan to impossvel eu ter feito tal juramento! , e os deuses gargalharam novamente, e para resolver a questo, ordenaram q ue a cabea se unisse ao corpo e que a dvida fosse paga, e a isto Laverna obedeceu. Ento Jove tomou a palavra: Temos aqui uma deusa maliciosa e sem adoradores, ao passo que em Roma h inmeros ladres, trapaceiro s, caloteiros e tratantes vivendo de fraudes, sem Igreja e sem Deus, o que uma pena, pois at os demnios tm seu mestre, Sat, o chefe da famlia. Portanto, ordeno que Laverna seja a deusa dos malandros e dos comerciantes desonestos, ao lado de toda a escria e refugo humano, que at o momento no tiveram deus ou demnio por serem desprezveis demais para ambos!; e assim Laverna se tornou a deusa dos desonestos e miserveis. Quem planejava cometer uma maldade ou desonestidade, invocav a Laverna em seu templo , que ento lhe aparecia com cabea de mulher. Se a pessoa no obtivesse xito em sua desonestidade, veria apenas seu corpo ao invoc - la n ovamente; mas sendo bem sucedida, seria agraciada com a viso de toda a deusa: cabea e corpo. Laverna no era honesta ou casta, e tinha muitos amantes e filhos. Dizia - se que seu corao no era mau, e que de tempos em tempos ela se arrependia de seus erros , mas no conseguia se corrigir das paixes inveteradas, apesar dos esforos. Se um homem engr avidasse uma mulher, ou uma jovem se descobrisse grvida e desejasse ocultar o fato, bastaria invocar Laverna diariamente. hora do parto, a deusa co nduziria a suplicante ao templo durante o sono para dar luz, e depois a levaria de volta ao lar. Pela ma nh, ao despertar, a jovem estaria saudvel, descansada e sentindo como se gravidez e pa rto no tivessem passado de um sonho. E s mulheres que vivessem agradavelmente a seus olhos e fossem suas seguidoras fiis, Laverna permitia reaver os filhos. Esta a cerimnia a ser realizada todas as noites a Laverna: Dedica - se deusa um recinto : um poro, um bosque ou qualquer outro local sol itrio; leva - se para l uma mesinha do tamanho de uma srie de quarenta cartas de baralho , que sero dispostas sobre ela como uma cobertura , mantendo - se o mvel em lugar oculto. Colha as ervas do medo 16 16 Papoula silvestre. 23 e da concrdia e as ferva juntas, repetindo: Fervo um ramo de concrdia para manter a paz com Laverna, que pode devolver meu filho. Que ela cuide de mim e por toda a vida me guard e dos perigo s. Fervo esta erva, mas no ela que fervo: fervo o medo, para manter afastado o intruso que aqui vier. Que dele se apodere o medo e fuja aterrorizado. Dito isso, ponha as ervas fervidas numa garrafa e distribua as cartas sobre a mesa, uma a uma, dizendo: A minha frente disponho quarenta cartas, mas no so quarenta cartas , e sim quarenta deuses superiores deusa Laverna , para que um a um se transformem em vulces ardentes, at que Laverna traga meu filho. Enquanto no fizer isso, sobre ela lanaro chamas ardentes e brasa s incandescentes por suas narinas , bocas e ouvidos, e s deixaro Laverna em paz quando eu estiver livre para abraar meu filho! A deus a era amplamente conhecida das camadas sociais inferiores: em Plautus, um cozinheiro, de quem haviam sido furtados utenslios, invoca - a pedindo vingana. Havia perto de Roma um templo em um bosque onde os ladres iam repartir os frutos de seus roubos, e ne le havia uma esttua da deusa. Segundo alguns, sua imagem era a de uma aplicado por Horcio, indica que ela concedia disfarces a seus seguidores e mantinha para si mesma s eu disfarce. Laverna era cultuada em segredo total : numa passagem de Horcio 17 , um impostor, que mal ousava mexer os lbios, repetia a prece: deusa Laverna! Conceda - me a arte de enganar e dissimular, para que os homens pensem que sou justo, santo e inocen te! Estenda escurido e obscuridade sobre minha iniquidades! Chamo a ateno para o fato de que, tanto neste como em muitos outros encantamentos de bruxas italianas, o deus ou o esprito cultuado – seja Diana ou Laverna – sofre ameaas de ser atormentado p or um poder superior at atender a graa pedida. Isto realmente clssico – ou seja, greco - romano ou oriental – , pois o mago recorre s fontes no em busca de favores, socorros ou poderes concedidos por Deus ou por Sat, mas para extrair da natureza infin ita ou fonte primeira tudo o que lhe for possvel , a duras penas e muito estudo. O diabolismo d ificilmente encontra do e ntre as classes mais altas 17 Epstola 16, livro 1. 24 de bruxas : no diabolismo cristo, a bruxa nunca ousa ameaar Sat, Deus, a Trindade ou os anjos, pois todo o sistema se fundamenta no conceito de Igreja e obedincia 18 . Apndice Em 1886 , quando j era de meu conhecimento a existncia de um manuscrito estabelecendo as doutrinas da bruxaria italiana, foi - me feita a promessa de que, se possvel, tal documento me s eria obtido. Aps insistentes pedidos a Maddalena – a pesso a a quem encarreguei de colher o referido folclore, durante sua vida errante na Toscana – , recebi finalmente, em 1 de janeiro de 1897, em Colle di Val d'Elsa , perto de Siena, o manuscrito intitulado Aradia, o Evangelho das Bruxas. interessante observar que cada ponto importante do Evangelho – Diana como Rainha das Bruxas e Deusa da Lua ; Aradia sua aliada na bruxaria; ter gerado um filho de seu irmo Sol; sua rel ao com Caim , habitante da Lua; as bruxas de outrora oprimidas pelos senhores feud ais e promovendo orgias a Diana; e tais orgias sendo representadas pela Ig reja como cultos satnicos – foi a mim narrado ou escrito fr agmentariamente por Maddalena e por outros especia li sta s, e curio so que relquias da Antiguidade tenham sido preservadas num Evangelho guardado por bruxos. H evidncias de que Aradia Herodias 19 , no passado considerada uma aliada de Diana, lder das bruxas. No sex t o sculo, o culto dedicado a Herodias e Diana j era condenado por um Conselho da Igreja em Ancyra; Pipernus e outros escritores identificaram Herodias com Lilith, e sis precedeu a ambas. Quanto aos seguidores de Diana, t anto na Roma Antiga quanto na ndia moderna se reconhece que nenhuma pessoa to desprezvel a ponto de perder o direito proteo divina, entendendo - se que as falhas humanas s o , inmeras vezes, inevitveis, decorrentes de hereditariedade ou de a pessoa ter nascido pobre , selvagem, em ambiente libertino ou fantico ; e a Diana coube proteger esses abandonados, descrentes, la dres e prostitutas – 18 O bruxo venera o esprito, mas reivindica o direito, adquirido de um poder superior, de compelir at a Rainha da Terra, do Cu e do Inferno a atender sua splica. Nunca se ouviu falar de uma bruxa satnica invocando ou ameaando a Trindade, anjos ou santo s. Na verdade, ela sequer compeliria o Diabo ou seus demnios a obedec - la, j que supostamente trabalhariam de boa vontade. Na antiga sabedoria italiana, a bruxa tudo ou nada, e seu obje tivo poder e vontade ilimitado s. 19 Sem relao com a personagem d o N ova Aliana . 25 os chamados servos da Lua . Durante a Idade Mdia – da queda do Imprio Romano at o sculo XIII – se pensou que as piores inclinaes do homem se originavam dos abuso s e da tirania da Igreja e do Estado, porque na poca, a cada reviravolta , a maioria se defrontava com desfaatez, iniquidade e injustia palpveis, sem leis que os protegessem ou senhores que os apoiassem. Isto levou inmeros descontentes rebeldia e, im possibilitados de se impor pela hostilidade aberta, canalizaram seu dio numa anarquia secreta e intimamente misturada superstio e a fra gmentos de antigas tradies, destacando - se . Cabe dizer que a alegada adorao sa tnica foi uma inveno tardia da Igreja , e at hoje tal adorao no encontra relevncia na bruxaria italiana – a bruxaria puramente diablica no teve aceitao geral at o final do sculo XV, quando foi inventada em Roma para justificar a destruio d a heresia alem. R ebel d es, proscritos e descontentes adotaram a bruxaria como religio, enxergando nos magos seus sacerdotes. Encontravam - se secretamente em desertos e em montanhas, entre runas consideradas pelos padres abrigos de espritos malignos e deuse s pagos; adoravam deuses proibidos e praticavam atos ilcitos movidos mais pela rebelio contra a sociedade do que por suas prprias paixes. E acredito que neste Evangelho so apresentados a doutrina e os ritos observados naqueles encontros. No terceiro captulo, tem - se a mulher como prin cpio da Criao. E m todo perodo de rebelio intelectual, h sempre um esforo para se considerar a mulher como igual ao homem. Em estranhas escolas de bruxaria, no neoplatonismo, cabala, cristianismo hertico, gnosticis mo, magia persa e dualismo, alm dos remanescentes de antigas teologias gregas e egpcias do te rceiro e quarto sculos em Alexandria, e na Casa da Luz, no Cairo, no sculo XIX, a igualdade da mulher constitua doutrina proeminente, na qual era Sofia ou Hel ena, a liberta, o salvador da humanidade. No Iluminismo, a igualdade da mulher voltou a ser alvo de ateno, e durante as agitaes que inspiraram huguenotes franceses, jansenistas e anabatistas, a mulher tev e grande participao social e poltica; ist o ta mbm se deu no espiritualismo fundado pelas irms Fox de Rochester, em Nova Iorque, e vem se manifestando de vrias maneiras nesse fi nal de sculo, evidenciando que a mulher como um peixe que surge quando as guas esto agitadas. A humanidade adquire alg o a cada rebelio , e da mesma forma que uma inundao fertiliza os campos, o mundo ganha 26 a cada revoluo, por mais terrvel ou repugnante que esta seja durante algum tempo. N a verdade, ambos os sexos so progressivos, e progresso no significa conflito en tre os princpios masculino e feminino, mas sim a percepo gradual da capacidade e da coordenao destas foras. A bruxa foi um fator importante na vida social rebelde, e at hoje se reconhece que existe algo de estranho, misterioso e incompreensvel na m ulher, inexplicvel para ela prpria e para o homem. Baniu - se a vassoura, o gato, os milagres, o sab e os pactos satnicos, m as o enigma permanece, e o Evangelho demonstra como estra nhos pensadores consideraram a C riao uma manifestao feminina, uma par tenognese de onde nasceu o princpio masculino : uma luz ocu lta na escurido de Diana, o calor abriga do a o vento. Finalmente, um estudo aprofundado das tradies das b ruxas italianas , bem como a comparao dessas tradies entre si, e delas com as obras de Ovdio e outro s mitlogos, leva convico de que em tais registros tardios h remanescentes valiosos da antiga sabedoria latina e etrusca, com probabi lidade de serem poemas , encantamentos e c ontos herdados da lngua antiga. Possivelmente , o Evangelho se trata de uma traduo de um trabalho latino, primitivo ou tardio, pois assim como h literatos entre os prias indianos, houve tambm muitos entre os ser vos da Lua. No entanto, as antigas tradies esto desaparecendo com rapidez to incrv el que, d e fato, agora a ningum seria possvel obter o material que colhi h dez anos na Toscana, contando com um auxlio excepcionalmente habilidoso. Os filhos de Diana Tudo foi criado por Diana: os grandes espritos das estrelas, os homens em seu devi do tempo e lugar, os gigantes antigos e os gnomos que mor am nas pedras e que , uma vez por m s, cultuam a deusa com seus bolos. Certa noite, um rfo pobre e bondoso estava sentado no deserto quando viu milhares de fadas pequenas, brancas e brilhant es dana n do luz da lua cheia. Ele disse: Como eu seria feliz se pudesse ser como vocs, s em necessita r de cuidados ou de alimentao! Mas o que so vocs?; ao que uma delas res pondeu: Somos raios de luar, filhas de Diana, filhas da Lua. Nascemos da luz resplande cente: q uando a Lua emite um 27 raio , este toma a forma de uma fada, e voc um de ns, porque nasceu quando a Lua estava cheia. Sim. Voc nosso irmo, nosso parente, e pertence a nosso bando. E se estiver f aminto, com apenas algumas moedas no bolso, pense em Diana – de quem nasceu – e repita : Lua minha, Lua bela! Mais formosa que qualquer estrela! Voc que sempre bela, traga - me a boa s orte!; e o dinheiro em seu bolso ser duplicado . As crianas que nasceram na lua cheia so fil has da Lua, especialmente s e nascem no domingo, quando a mar est alta. Se a mar subir e a Lua se enc her, um grande homem h de ser! Ento o jovem tocou os poucos tostes que trazia no bolso e disse: Lua minha, bela Lua, minha sempre bela Lua! ; e desejando prosperar, comeou a com prar e a vender, e seu lucro duplicava a cada ms. Porm, depois de algum tempo, ele nad a conseguia vender, at que disse Lua: Lua minha, Lua bela! A quem amo mai s que qualquer estrela! E stou destinado a nada mais ganhar?; e ento lhe surgiu um elfo luze nte, dizendo: Trabalhe com afinco! No ser socorrido nem ter auxlio se apenas esperar que o dinheiro venha a voc! Tenho ajuda a oferecer, meu caro, mas no dinheiro!; e o jovem compreendeu que a Lua, como Deusa e Fortuna, muit o faz por quem faz por si mesmo: como o apetite vem da vontade de comer, o lucro vem do trabalho e da poupana. Nascer na lua cheia significa ter mente iluminada , e a mar alta traz consigo intelecto elevado e raciocnio pleno. No basta estar no belo barco da fortuna: preciso re mar bravamen te! Por melhores que sejam as aes e as palavras, o barco precisa ser remado para se mover! como se diz: a fortuna s vezes agracia os preguiosos, mas na maioria das vezes, ela est com os que muito trabalham. Diana, Rainha das Serpentes Certa vez, Melambo perguntou me por que no se havia ainda cumprido a promessa de que ele conheceria a lngua de todas as coisas : Pacincia, meu filho! A prendemos quando esperamos e observamos a ns mesmos; d entro de voc h mestres, e voc deve procur ar ouvi - los; so professore s que podem lhe ensinar em minutos o que outros homens aprendem em toda uma vida. T empo s depois, pensando sobre isso enquanto brincava com um ninho de jovens serpentes, encontrado por um de seus servos num oco de carvalho, Melam bo disse: 28 Gostaria de conversar com vocs, pois sei que tm uma linguagem to graciosa quanto seu movimento, to brilhante quanto sua cor. Adormecendo em seguida, as serpentes se enroscaram em seus cabelos e lhe lamberam os olhos e lbios, enquanto a me delas cantava: Diana! Diana! Diana! Rainha das bruxas, da noite escura e de toda a natureza! Rainha d as estrelas, da Lua e de toda a fortuna! Voc que re ge mar s , que b rilha sobre mar es , que ilumina ondas, que amante d o oceano! Que segue em seu barco em forma de crescente: barco lunar em claro fulgurante, sempre sorrindo no alto dos cus! Voc q ue , navegando sobre a terra, reflete a si mesma nos mares! Imploramos que este homem adormecido, o bondoso Melambo, seja agraciado com o dom de entender o que diz em todas as criaturas! Diana, doadora da beleza Certa vez, em Monteroni , um rapaz muito feio , rico e audaz chamado Gianni, teve a imprudncia de se oferecer para fazer amor com uma jovem belssima, loira, culta e de posses , por quem era apaixonado, e obviamente foi rejeitado . Ele, porm, possudo de paixo tremenda – pois influncias desconhecidas estavam atuando – rondava sua casa dia e noite, esperando uma oportunidade de sequestrar ou dominar a jovem ; mas seus planos se frustravam , pois ela tinha se mpre a seu lado um gato enorme , que parecia ter inteligncia humana: bastava Gianni se aproximar dela ou da casa para o animal emitir um som terrvel – e havia algo de to sinistro em sua aparncia e to impressionante em seus olhos verdes e grandes , brilh antes feito tochas, que intimidaria o mais ousado dos homens. Certa noite, Gianni, pensando ser uma tolice temer um simples gato , pegou uma escada e a apoi ou n a janela da jovem ; mas quando estava prestes a subir, viu a seu lado uma velha, rogando - lhe a n o perseverar naquele intento : A senhora no quer saber de voc, que um terror para ela. Se for para c asa e se olhar no espelho, ver que a prpria imagem do pecado em forma humana.; ao que Gianni gritou, enr aivecido: Fao a minha maneira aquilo que eu bem quiser , velha esposa do diabo! Eu deveria matar voc e sua senhora !, e subiu apressadamente a escada. Mas antes de abrir a janela, viu - se, l no alto, impedido de se mover, como se transformado em madeira ou pedra. Profundamente envergonhado, disse: N o demorar para toda a cidade estar aqui e testemunhar minha 29 derrota, mas farei ainda assim um ltimo apelo! Velha! Voc quis me avisar com mai s amabilidade do que eu merecia! Imploro seu perdo! Salve - me desta dificuldade! E se uma bruxa, rogo - lhe que faa de mim um fei ticeiro, pois vejo agora que a jovem que amo tambm de sua classe , e devo fazer algo para merec - la! Ento a velha se levantou do cho como um raio de luz e, tocando - o, tirou - o da escada – e de repente, onde antes estava a bruxa, agora estava o gato, dizendo : Oriento - lhe a fazer um bem a um pobre animal! Voc encontrar um bode, um grande bode, e dir: Boa noite, belo bode!, e ele responder: Boa noite, belo senhor! Estou to fraco que no posso ir adiante!, e voc responder: Eu lhe ro go, Fada Diana, que d alvio e paz a este bode!; e em seguida entraremos num grande saguo com muitas senhoras belssimas, que lhe tentaro, e sua resposta a elas dever ser: Amo aquela de Monteroni. E agora, Gianni, ao cavalo! Monte e parta! Ele montou no gato, que partiu veloz como um pensamento, e ao encontrar uma gua, proferiu sobre ela o encantamento, fazendo - a se t ransformar numa mulher, que disse: Em nome da Fada Diana, que voc se torne um belo jovem, de tez vermelha e branca, como leite e sangue !; em seguida, ele encontrou um bode, fez a conjurao e o animal respondeu: Em nome da Fada Diana, que voc se vista mais ricamente que um prncipe!; e quando entrou no saguo e foi cercado de ate nes pelas belas mulheres, respondeu que seu amor era de M onteroni. E ento ele nada mais viu e nada mais conheceu . Ao despertar, estava em Monteroni e era um belo rapaz , por tod os desconhecido. Assim, Gianni se casou com sua senhora e ambos viveram a vida oculta dos bruxos daquela poca, e agora se encontram na Terra das Fadas.

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